Atualizado: Set 13


Por Sylvia Calandrini


No livro Mergulho, publicado pela Editora Paka-Tatu, Tiese Teixeira Júnior apresenta uma realidade ao mesmo tempo particular e coletiva, que sempre reverbera em seu discurso de forma contundente: Existem Amazônias!


Tiese Teixeira é professor com experiência na educação básica e, atualmente, no ensino superior. Fez de sua práxis a defesa da leitura como emancipação, cujos preceitos vivenciou em seu processo de formação, que, devido à realidade ribeirinha, parece ser mais custoso e demorado... Eu bem sei.


Ler Tiese é como sentar e conversar à beira do rio para falar do que se ouviu de alguém. Claro que não se trata de um mero repasse de informações: é a necessidade de falarmos de nós mesmos, de nossa gente, do nosso lugar.


Por isso, seus quinze contos foram urdidos – e é este o papel do autor – numa intenção: primeiro mergulhar as histórias no que é o nosso chão, só que liquefeito... nossa realidade, nossa essência – por mais que alguns tentem esquecê-la – ribeirinha. O retorno à superfície cabe a nós, leitores. E a tecitura feita por Tiese ora nos encanta, ora nos confronta.


Encanta quando ressalta, por exemplo, o protagonismo das mulheres amazônidas, que, tal qual as guerreiras míticas, lutam por respeito e para conseguir seu espaço – uma delas, Morena, “viveu do jeito que quis” (p. 29). Mas somos confrontados com denúncias de uma infância que ainda não é respeitada – seja pelo assédio contra as meninas, seja pela falta de uma educação de qualidade – e com um evento representativo do desrespeito com os povos da floresta. O mais significativo é que não são relatos descontextualizados, nos quais se evidencia o olhar de quem vê de fora; são narrativas dos que vivem o cotidiano com sua própria ciência...


É o que sabemos lendo Peneiras: “Em casa, éramos orientados a ter cuidado com a mata, os animais, os igarapés e o rio. [...]. Tirar óleo de copaíba requeria cuidados especiais. Tinha que considerar as fases da Lua, na Lua cheia era o melhor período [...]” (p. 11); e os Pés e as mãos, que “[...] viviam machucados. Naquele mundo, os trabalhos eram marcados por relações dolorosas, que, com o tempo, eram naturalizados como algo do que não se podia fugir” (p. 30). Estas e outras tantas reflexões são as cenas amazônicas que também constituem nossa identidade.


Mergulho certamente é uma leitura válida porque não tem um fim utilitarista – definir a Amazônia como um locus idílico, por exemplo –, e, por isso, chama a atenção de quem tem o hábito da leitura ou apenas quer se reencontrar com vivências há muito esquecidas.


Sylvia Calandrini é licenciada em Letras pela Universidade do Estado do Pará [UEPA].

34 visualizações0 comentário

Publicação trata não apenas dos modos de viver dos habitantes, mas também de seus modos de comer alimentos como avoado e virada de camarão, entre outros.



“O leitor vai encontrar os modos de comer e de viver dos caboclos e das caboclas que povoam as comunidades rurais da Amazônia Atlântica, do Nordeste paraense. A obra vai revelar um pouco do que somos e do que comemos”, diz o autor paraense, professor -pesquisador de Ciências Sociais, com estudos na Universidade de Barcelona, na Espanha.


Segundo Miguel Picanço, o livro vai mostrar por meio de fotografias e de depoimentos experiências de sociabilidades e de comensalidades que tratam não apenas dos modos de viver dos habitantes, mas também de seus modos de comer alimentos como avoado e virada de camarão, entre outros.


“E histórias como as do seu Sebastião, que faz farinha d’água na comunidade de Araí, no meio rural de Augusto Côrrea, na região Bragantina”, diz o autor, que é professor de Sociologia nas secretarias de educação do Estado do Pará (Seduc) e do Município de Belém (Semec).


Serviço:

Live de lançamento do livro de Miguel Picanço, "Comida cabocla, uma questão de identidade na Amazônia: desde uma perspectiva fotoetnográfica.

Dia 10 de abril às 18h




Reportagem de Suely nasciemnto para O Liberal

34 visualizações0 comentário

Conhecido por atuar em causas sociais e sindicais, como o Massacre de Eldorado, ele apresenta obra ficcional inspirada em histórias reais que acompanhou profissionalmente.



O advogado sindical Walmir Brelaz estreia na literatura com o romance “Revivências”, recém-lançado pela Editora Paka-tatu. O conhecido defensor de causas sociais emblemáticas da História Paraense - como os casos dos sobreviventes sequelados do Massacre de Eldorado do Carajás e do flanelinha Jonnhy Igson, que ficou tetraplégico após ser baleado por um policial – parte para contar a história ficcional a partir de histórias que vivenciou como profissional numa obra que provoca reflexões sobre a eficiência dos sistemas Judiciário e governamental e das lutas sociais diante do poder paraelelo da criminalidade.


Com 27 anos de carreira advocatícia, Walmir Brelaz estampou muitas notícias jornalísticas. Como advogado dos sobreviventes do Massacre de Eldorado, ocorrido 1996, e do jovem Jonnhy Igson, já falecido, ele conseguiu viabilizar o pagamento de pensões do estado e assistência de saúde a essas vítimas. E também por atuar há muitos anos como advogado do Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Pará (Sintepp), uma das maiores organizações sindicais do estado.


Uma referência dessas e de outras histórias serviram de inspiração para o enredo que gira em torno de três personagens principais: o jovem Tiago, vítima de tortura por policiais civis; Padre Vieira Borges, numa referência declarada ao Frei Henry des Rosiers, advogado e religioso francês que por anos se dedicou à luta pelos Direitos Humanos e pela reforma agrária no Sudeste do Pará; e o advogado Vicente Bastos, alter ego do autor.


“Faço uma justa homenagem em reconhecimento à importância da luta do Frei Henry. Ele conseguiu a primeira condenação dos mandantes do assassinato no campo, que foi o caso do sindicalista Expedito Martins. De lá pra cá, pouca coisa mudou. Tivemos as chacinas de Pau D’Arco e em terras indígenas, entre outros”, conclui.


Reflexões duras

“É autoficção, não autobiografia. Conto histórias inspiradas na vida real, mas, de qualquer maneira, tem muito a ver com a realidade. Minha intenção maior é trazer debates para reflexões, de questões que envolvem os casos que enfrentei, como na Segurança Pública e o Sistema Carcerário. Observei que quem dá a ordem final no sistema não é o governo e sim as organizações criminosas. É um mundo paralelo tão forte, que te coloca em questionamento, se denuncia ou se adapta àquela realidade”, descreve.


Outro questionamento é sobre a imparcialidade do juiz, um dever atribuído a autoridades que, como outras pessoas, também têm sentimentos, tendências e interesses. “Conto a história (inspirada em fatos reais) de uma vítima que se constrange de ir à delegacia por conta dessa estrutura do Judiciário e do governo que não ampara os cidadãos”, menciona.


Entre outras estórias de “Revivências”, Walmir Brelaz se inspira também no caso do sindicalista já falecido Cosmo Cabral, que foi diretor de uma escola pública, eleito pela comunidade escolar, mas, por confrontar a gestão governamental, quase foi preso. Um grupamento de 40 policiais militares fortemente armados foi enviado à escola para retirá-lo do local, mas o professor sofreu um infarto que o levou à internação hospitalar, onde foi mantido sob vigilância policial por quatro dias, período em que obteve um habeas corpus.


Noutra situação referenciada na obra, uma professora, filha de um conhecido ativista da reforma agrária assassinado, foi removida da escola em que trabalhava no interior paraense para o estabelecimento de ensino próximo à fazenda pertencente a um dos mandantes do crime que vitimou o genitor dela.


A sobrevivente de Eldorado, Rubenita, surge nas páginas de “Revivências” como Anita Sebastiana, mulher que mantém uma bala alojada na mandíbula e que sonha em retirar o projétil cirurgicamente para por próteses no lugar dos quatro dentes perdidos na violência sofrida há quase 26 anos. “A personagem quer superar o trauma, esquecer o que viveu e voltar a sorrir novamente”.


“Baseio muito o meu livro no Kafka, nessa agonia, angústia se a justiça vale ou não vale (à pena). Faço o paralelo de um advogado, que supostamente sou eu, com seus questionamentos e reflexões, e, ao mesmo tempo, de um militante que luta sem descanso e sem necessariamente atingir os objetivos”, menciona.


“A quem serve o sistema de segurança pública? De que valem letras grafadas em códigos, interpretadas por juízes imparcialmente subjetivos? A quem interessa a ocupação de uma região rica em minérios e terras férteis, à custa da violência agrária que culminou em centenas de mortes?”, são alguns dos questionamentos do autor.


Carreira

Walmir Brelaz lançou anteriormente três livros, todos técnicos, sem ficção: “Os Sobreviventes do Massacre de Eldorado do Carajás”, fruto da tese de mestrado do autor, que, junto com “O Flanelinha: sinal vermelho para Jhonny Yguison”, retrata fatos reais em que atuou como advogado; e a análise jurídica “Comentário sobre o PCCR dos profissionais do magistério do estado do Pará”, análise jurídica sobre o caso judicial para o cumprimento do Plano de Cargos, Carreira e Salários dessa categoria.


Em 2018, Walmir Brelaz recebeu o Prêmio de Direitos Humanos, Frei Henry des Roziers da Ordem dos Advogados do Brasil- Subseção de Xinguara (OAB-PA).

“Revivências” começou a ser escrito há três anos. O autor revela que o exercício ficcional deu-lhe vazão à vontade de se afastar da realidade, mas, na prática, sem se afastar demais, mas o suficiente para narrar histórias tensas, de violência e sofrimento de forma menos dura.


Reportagem de O Liberal

43 visualizações0 comentário